Uma introdução à teoria de “o melhor dos mundos possíveis de Leibniz”

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Escrevi este texto para os meus alunos do segundo ano do ensino médio. Percebi que o material que trata do assunto, disponível na internet, é complexo, dificultando à compreensão do aluno.Acredito que a linguagem aqui é bastante acessível para quem não teve contato com o vocabulário filosófico.

A teoria de Leibniz dos mundos possíveis é, na verdade, uma teoria lógica. Isso significa que o nosso mundo atual, com árvores, pessoas, suas leis da natureza, etc., faz parte de uma infinidade de mundos possíveis lógicos. Mas o que é um mundo possível? Um mundo possível pode ser caracterizado como uma possibilidade lógica. Significa que as coisas que atualmente conhecemos poderiam ter tomado um caminho diferente. Por exemplo, eu sei que pessoas no nosso mundo físico não têm a habilidade de voar como um super homem, ou de respirar debaixo d`água. Mas isso não significa que o mundo atual não poderia conter pessoas que tivessem essas habilidades de voar ou respirar debaixo d`água. Ou seja, isso significa que há um mundo possível em que pessoas possam voar ou nadar. Atualmente você é estudante do FLOCA, mas nada impede que você fosse aluno do CEI ou do Edgar Barbosa. Isto é, há um mundo possível no qual você poderia ter sido aluno de uma dessas duas escolas. Um mundo possível é apenas um mundo de possibilidades lógicas, pois não há nada de ilógico no fato de você não ter sido aluno do FLOCA e ter sido ou um dia ser aluno do CEI ou Edgar Barbosa. Como disse o Ronald Nash: “Falar de mundos possíveis é uma maneira conveniente de se referir à possibilidade de que as coisas neste presente mundo pudessem ter sido diferentes”1

Outra forma de definir um mundo possível é que quando você pensa nele você não vê nenhuma contradição lógica. Não há nenhuma contradição em pensar que você poderia ter sido filho(a) do Bill Gates, mesmo você não sendo no nosss mundo atual. Entendendo isso, deixe-me lhe perguntar: “existe um mundo possível no qual triângulos não tenham três lados? Ou que uma mãe biológica seja mais nova do que o seu filho biológico? Claro que não! Por isso que podemos dizer que não há um mundo possível no qual um triângulo não tenha três lados ou que uma mãe biológica seja mais nova do que o seu filho biológico, pois ao afirmar essas coisas você cai em absurdos lógicos.

Considere o filme Harry Potter ou o filme X-men. Mesmo que no nosso mundo atual seja muito diferente do mundo apresentado por esses dois filmes, seria perfeitamente possível que no nosso mundo pudesse ter se desenvolvido de tal modo que parecesse com o mundo de um dos dois filmes. Não há nenhum absurdo lógico em admitir que seria possível que no nosso mundo pudessem existir mutantes ou pessoas que manipulam a prática da magia. Para exemplificar melhor essa ideia, digamos que a teoria da evolução (para quem acredita nela) tivesse gerado seres com essas incríveis capacidades, ou então para quem é criacionista (quem acredita que Deus criou todas as coisas) tivesse brindado a humanidade com essas capacidades espetaculares. Seria impossível essas coisas acontecerem? Claro que não. O fato de as coisas no nosso mundo terem as características atuais não quer dizer que o nosso mundo não pudesse ter características diferentes. É bem verdade que essas coisas não existem no mundo concreto e real, mas não estou falando aqui do mundo real, e sim de um mundo do ponto de vista lógico. Sendo assim, um mundo possível é aquele no qual ele poderia ter tido um rumo diferente da forma como o conhecemos atualmente. Não seria impossível que ele tivesse existido na forma como é retratado nos filmes de X-men. Um filme de ficção e super heróis é sempre um mundo possível, pois do ponto de vista lógico tudo aquilo que você vê na tela do filme poderia ter acontecido ou estar acontecendo no nosso mundo real. Talvez não saibamos como ele poderia sair da possibilidade lógica para se tornar real, mas isso não impede que ele pudesse ter tomado um caminho diferente daquele encontrado em nossa realidade. Seria perfeitamente possível que no processo de desenvolvimento do nosso mundo, as leis da natureza tivessem sido produzidas de uma forma completamente diferentes das atuais.

Mundos possíveis e o livre-arbítrio.

Como Leibniz era um filósofo racionalista 2 Cristão, ele acreditava que Deus, ao criar o nosso mundo atual, escolheu o melhor dos mundos possíveis. Por Deus ser onisciente (conhece todas as coisas), ele sabe todas as possibilidades de configurações que o nosso mundo atual poderia tomar. Digamos, por exemplo, que antes de Deus criar o mundo, ele tivesse em mente dois mundos: A e B (eu poderia colocar uma infinidade de mundos possíveis, como C,D,E, e assim por diante, pois a quantidade de formas que o nosso mundo poderia ter tido é infinita). O mundo A corresponde ao mundo em que vivemos e que contém dentre suas inúmeras características o céu de cor azul, rochas e mares.

Já o mundo B seria um mundo bem diferente do nosso mundo atual, pois ao invés do nosso mundo ter um céu azul, o céu fosse de cor amarela; ao invés do nosso mundo ter rochas e mares, ele teria apenas rochas. Por que Deus então escolheu fazer o nosso mundo de acordo com o modelo do mundo A, ao invés do modelo B? A resposta provável de Leibniz era porque Deus escolheu o melhor mundo possível tendo em vista uma finalidade: seres vivos precisam de água para viver. Portanto, para um ser de capacidade racional elevada como Deus , ele escolheria fazer o nosso mundo de acordo com o modelo A.

Para Leibniz, tudo o que Deus faz tem uma razão de ser, sempre seguindo a máxima “o princípio do melhor”. Pois bem, isso pode até gerar uma certa inquietação na nossa cabeça: “Se dentre todos os mundos possíveis Deus escolheu o melhor para habitarmos, então não seria melhor ele ter criado um mundo livre de dor e sofrimentos?” À primeira vista essa pergunta faz sentido. Mas Leibniz possivelmente responderia: “somos limitados na nossa percepção de ver as coisas nos mínimos detalhes. Nunca vemos as coisas no todo. É possível que este mundo contendo sofrimento seja preferível a um mundo em que não haja sofrimento”. Digamos, por exemplo, que antes de criar o nosso mundo, Deus tinha em mente duas possibilidades que poderiam serem realizadas pelo seu imenso poder: A) Um mundo com livre-arbítrio, onde pessoas fariam escolhas reais; B) Um mundo sem dor e sofrimentos. Leibniz disse que é mais sensato para Deus preferir escolher o mundo A do que o B. Mas por quê? A resposta está no livre-arbítrio. Segundo o pensamento Leibniziano (de Leibniz), Deus até poderia ter criado um mundo no qual existissem seres humanos isentos da dor e sofrimento, mas o resultado disso seria um mundo onde seres humanos não seriam genuinamente livres, pois Deus teria que programa-los para sempre fazerem o bem, sem a possibilidade de eles escolherem seguir o mal. Eis a razão porque Deus criou o mundo A com livre-arbítrio, mesmo sabendo que criaturas livres teriam diante de si o poder tanto de escolher o bem quanto o mal. Quando um ladrão rouba algo de alguém ele faz isso de livre e espontânea vontade. O ladrão tem diante de si a escolha entre duas possibilidades: roubar ou não roubar. E é justamente essa possibilidade de escolhas entre o bem e o mal que torna o ser humano livre.

Sendo assim, o nosso mundo contendo pessoas livres fazendo coisas erradas é preferível a um mundo que não tenha nenhum mal mas que também não possa ter criaturas livres. Suponha que toda a população da terra estivesse pedindo a Deus que exterminasse todo o mal da terra. Agora suponha que Deus decida fazer um plebiscito com elas fazendo a seguinte pergunta: “vocês querem que eu remova todo o mal moral existente na face da terra? Ok, posso fazer isso, mas eu preciso suprimir todo o livre-arbítrio de vocês para que nenhum de vocês escolha mentir, roubar,matar,etc.”. Isso porque não há mundo possível no qual pessoas sejam livres sem a possibilidade da real existência do mal. A partir do momento em que Deus cria seres livres, automaticamente surge a possibilidade dessas criaturas abusarem do seu livre-arbítrio e fazerem todo tipo de mal existente no mundo. Não é que Deus seja responsável pelos males morais do mundo, Deus é responsável por ter dado a dádiva do livre-arbítrio. Leibniz duvidava que as pessoas aceitassem a proposta de Deus para eliminar o livre-arbítrio delas, mesmo sabendo que, em troca, os males morais da terra seriam eliminados, pois se tem uma coisa que as pessoas gostam de ter é sua capacidade de serem livres e fazerem escolhas genuínas.

Por: Amadeu L. Batista.

Notas de fim:

1 NASH, Ronald. Questões últimas da vida: uma introdução à filosofia. São Paulo. Ed. Cultura cristã. 2008.p.230.

2 Racionalista diz respteito à uma concepção filosófica que alega que a razão, pensamento, é o instrumento prinpal na descoberta da verdade.

Bibliografia:

SAPUNARU, Raquel Anna . Sobre o “melhor”do “Melhor dos Mundos Possíveis” e o conceito de “compossibilidade”. Texto disponível em: https://seminarioppglm.files.wordpress.com/2009/09/sobre-o-melhordo-melhor-dos-mundos-possiveis-e-o-conceito-de-compossibilidade.pdf Acessado em: 17/09/2015.

NASH, Ronald. Questões últimas da vida: uma introdução à filosofia. São Paulo. Ed. Cultura cristã. 2008.

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