Sociedade flutuante

83A sociedade moderna criou espantalhos para chamar de gente, mitos para chamar de fatos, mentiras para chamar de verdade, criou falsos sinônimos para distorcer a reta moral, para confundir ética com futilidades.

Amor tornou-se: promiscuidade.

Educar tornou-se: doutrinar.

Ter opinião tornou-se: vegetar sobre ideologias.

Fé tornou-se: política.

Rezar tornou-se: comício.

Ser bom tornou-se: cafona.

Humildade tornou-se: uma desculpa para o fracasso.

Lei tornou-se: direito de alguns.

Moral tornou-se: opressão.

Liberdade tornou-se: libertinagem.

Deus tornou-se: instrumento capitalista.

Teologia tornou-se: arma comunista.

Família tornou-se: cubo de ensaio.

Verdade tornou-se: relativismo.

O certo tornou-se: errado.

Homem tornou-se: mulher.

Mulher tornou-se: homem.

Cultura tornou-se: funk.

Arte tornou-se: aberração.

Vivemos a calamidade dos conceitos! Quando esquecermos o que é certo, errado, verdade e mentira, estaremos abertos a todas e quaisquer mudanças, das mais simplórias e sorrateiras às mais drásticas e deformadoras que possam ser-nos impostas como uma realidade “incontestável”. Se não soubermos o que significa dois (2), mais (+), dois (2), o que impedirá que a “verdade” desta soma seja nove (9)? Se não nos lembrarmos das bases de nossa cultura, moral e ética, facilmente daqui algumas décadas estaremos matando inocentes convencidos que é certo matar inocentes.

Em 1984 — a magnifica sátira — de George Orwell, Winston — o sábio funcionário público que buscava iniciar a revolução que levaria a sociedade a libertar-se do julgo totalitário do grande irmão — foi capturado e torturado, porém, insistia em acreditar que a realidade era diferente da pintada pelo SOCING (Partido socialista Inglês, que controla a Oceania, país fictício da obra acima citada). Winston acreditava que a verdade realmente existia e era tão real como as “teletelas” que o vigiavam; acreditava que não era possível que a verdade e a mentira subsistissem juntas sem contrariá-las simultaneamente; acreditava que haviam princípios a serem seguidos.

Winston somente conseguiu ser domado pelo partido, quando — através de torturas— foi convencido de duas coisas: que não haviam princípios morais e éticos, e que não havia o princípio lógico da: não contradição. No mundo da Oceania, que acima falamos, havia um termo, que se designava como ordem a todos: “Duplipensamento”, que afirmava ser possível acreditar, ao mesmo tempo e da mesma maneira, em dois “conceitos” contraditórios como sendo ambos verdadeiros[1].

O partido tendo como estratégia, tornar a sociedade ignorante e incapaz de reagir intelectualmente a opressão sofrida, diminuía as palavras e expressões linguísticas em seus dicionários (Novafala), apagavam os princípios morais e todos os conceitos que pudessem levar a eles de alguma forma, fazia-se crer que a contradição é uma verdade indiscutível — assim como a supremacia do partido —, a partir disso a bestialização social estava perfeita, e completa, sendo exatamente o que um sistema totalitário quer.

O saber mais primordial sobre uma estrutura engenhosa, seja ela de um prédio ou de uma sociedade, é que: sem bases tudo há de ruir.

Seguindo como conclusão gostaria de deixar algo bem explícito: são três as coisas pelas quais devemos lutar e defender até com a vida se necessário, a liberdade seja ela de opinião, religiosa ou familiar; alta cultura (ensino baseado na não-doutrinação ideológica, ensino das artes liberais, e filosofia ocidental), e a moral cristã; sem estas bases cairemos indubitavelmente. Nossa sociedade não flutua, ela clama por bases sólidas que as mantenham, sem elas voltaremos às florestas e cavernas, sendo nada mais que Homo homini lupus.

Autor: Pedro Henrique Alves

Referências:

[1] Aqui cabe diferenciar “contradição” de “paradoxo”, contradição são dois conceitos que não cabem em um mesmo raciocínio sem que um exclua o outro mutuamente, por exemplo, “Eu sou um alto baixo”, “Sou um comunista que crê no livre mercado” “Tudo veio do nada”.

Paradoxo (no pensamento chertertoniano), por sua vez, são dois conceitos ou termos que aparentemente se contradizerem, porém, são conciliáveis em uma mesma estrutura inteligível, são maneiras de explicar a realidade, que nem sempre cabe nos moldes analíticos das representações linguísticas. “Louco não é o homem que perdeu a razão, louco perdeu tudo menos a Razão” Frase de Chesterton em sua obra Ortodoxia. Para Hilaire Belloc paradoxo é a: “iluminação de algo mediante uma justaposição inesperada”; e para Gustavo Corção, “Chesterton não procurou nos seus tão admirados paradoxos fazer acrobacias verbais, e muito menos procurou jogos para agradar os jovens e os imaturos. Pascal, com seu timbre de abismos, não é mais trágico nem mais sério do que Gilbert Keith Chesterton”.

ORWELL, George. 1984, 1ª Ed. São Paulo: Companhia das letras, 2009.

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